Entrevista com Gustavo Haddad

Pergunta: Por que Haddad? Família apenas?

Resposta: HADDAD e um nome de família ( como voce já deve ter notado ) A adoção desse nome para a banda deve-se ao fato de que , originalmente o trabalho estava identificado com a minha pessoa. O disco de estréia ( um LP em 87 ) foi assinado como solo de GUSTAVO HADDAD. Quando da produção do segundo disco ( um CD em 83 ) achei melhor suprimir o pré-nome, de modo a caracterizar a obra como um trabalho de grupo, fazendo justiça a colaboração dos demais músicos ( Dois dos quais também eram Haddad ). O nome gerou uma logo-marca e acabou ficando para os discos seguintes: BLUES E OUTROS BICHOS e DEUSES, ANJOS, HOMENS E BESTAS. De qualquer maneira, eu e o Leo somos o centro nevrálgico da coisa e creio mais viável falar em história de vida do que histórico da banda.

Pergunta: Qual o envolvimento musical dos componentes da banda? Alguma influência?

Resposta: Nosso envolvimento com música vem de berço: avós, tios,primos, todo mundo na família toca algum instrumento, enfim... desde criança, ouvir música sempre foi o grande barato.
Embora venha compondo e fazendo "shows" desde 79, somente nos ultimos dez anos foi possivel traduzir todo esse envolvimento em algo mais sério, especialmente a partir da criação de um estúdio de gravação em 85. Foi uma grande escola para mim. Embora o mesmo já não exista hoje como empresa, não há dúvida de que cumpriu sua missão, funcionando como laboratório, onde pude aperfeiçoar meus conhecimentos de arranjos e produção musical. Eu e o Leo somos essencialmente compositores. Esta é a dimensão artística que nos interessa mais de perto e a qual nos dedicamos de corpo e alma. Infelizmente ( ou felizmente, não sei ) temos que trabalhar essa atividade de modo alternativo, ou seja: ao lado de outras que nos garantem o dia-a-dia. O leo é administrador de empresas e eu sou servidor da Justiça Federal e professor de História. Não tente entender tanto ecletismo, não vale a pena. Sofremos influencias diversas : Beatles, Genesis, Camel, Santana, YES, ELP, Supertramp ... e além do rock, Gershwin, Porter, Chopin, Mozart, Nazareth...

Pergunta : Percebe-se um certo ar depressivo e dramático nas letras...

Resposta: A dramaticidade das letras, o clima meio depressivo, reflete o modo como vejo a vida ( não necessáriamente o tempo todo ). O estilo Progressivo ( ou progressista, como prefere o Montanari ) contribui para que as composições tenham este ar lúgubre, romântico ( na correta acepção do termo, nada de pieguice ), sinistro.... Algo que herdamos do GENESIS, sobretudo. Confesso que desde muito tempo curto trabalhar com fantasia, com temas estranhos, com o "wild side" da mente humana. É como um " Mal do Século" extemporâneo. Influências diversas de gente como Arthur Schoppenhauer, Goethr , Poe etc... O fato disso fluir para as canções é natural ( não provocado ). Até mesmo porque nunca compomos motivados por conveniências comerciais ou para agradar a quem quer que seja.

Pergunta : Fale um pouco do disco que está aqui na página e do futuro da banda.

Resposta:

METATRON é o nome de um anjo. Um anjo irado, tal como o Leo o concebeu quando compos a faixa. Dei uma pequena ajuda com o solo de synth e o Pelissari com a introdução ( meio-hard ).

RECORDAÇÕES DE OUTRO MUNDO é uma peça antiga feita sob o impacto da guerra fria, debaixo daquela sensação angustiante de um Armagedon iminente. È a visão de quem sobreviveu a um DAY AFTER romantico.

PEDRA DO LAGARTO tem toda aquela influencia dos compositores nórdicos, sobretudo Grieg. É também uma localidade nas montanhas do E.S., ou seja, é um acidente geográfico que existe ao norte de Vitória, numa região muito fria, invernal, melancólica.

SE O CÉU NÃO TEM ALMAS PARA NOS DAR é uma brincadeira filosófica " a la Shoppenhauer" (ver Dores do Mundo). Musicalmente, é uma das melhores coisas que eu fiz. Muito ao estilo Pete Bardens. Utilizei um Vintage Keys da EMU para solar e tentar resgatar todo o clima de moogs e arps dos anos 70.

ARCANJO GABRIEL foi composta para meu casamento. Posteriormente deixou-se contagiar pelo clima do disco e acabou incluida. Dedico a faixa a meu filho . É uma musica em que atuo sozinho (assim como Pedra do Lagarto ).

EU DIVIDIDO essa eu devo a R D Laing. É uma canção em que exponho de modo claro a dicotomia Dr. Jekkill / MR Hide.

O VAZIO O ABENÇOA , AXXEL - É a história de um suicida que mais do que deseja morrer roga por ajuda. Os dois XX de AXXEL simbolizam o século em que vivemos. Ago como 21st Century ... do Pete Sinfield.

EVERGLADES é a versão caribenha de ECHOES . É uma especie de Floyd com Santana nas guitarras. Eu tinha um tema basico que desenvolvi no estúdio com o paulo Pelissari na hora de gravar.

ARCHAEOPTERIX ... Essa eu fiz depois de ler o fim da infancia de A Clark. Pura fantasia, ARCH... é o nome de um, animal pré historico ( um elo entre aves e répteis ). O solo de meio é uma interessante fusão estilística, eis que o ritmo básico é o baião. Existe uma versão anterior, não registrada em discos, com introdução de moogs.

Para o segundo semestre do ano, tudo pode acontecer. A ideia fundamental é divulgar os discos, preferencialmente junto as pessoas certas. Estamos abertos a associações para distribuição e divulgação do trabalho. Pouco ainda foi feito, particularmente devido a problemas pessoais. Excesso de atividades, excesso de compromissos estranhos a musica.

Um grande abraço

Gustavo Haddad